Opinião Sá da Costa: "A variabilidade das fontes renováveis será um problema ou uma vantagem?"

08.06.2015

As principais fontes renováveis para produzir eletricidade em Portugal são a hídrica, a eólica e a solar. Estas fontes não são controláveis mas a disponibilidade do seu recurso é previsível, sendo que estas previsões já são muito corretas e mais fáceis de fazer do que as previsões da variabilidade do consumo.

 

Mas se estas questões eram um problema no passado com o desenvolvimento da tecnologia deixaram de o ser, embora continuem a ser um desafio importante que, no caso português, tem sido bem superado pelo gestor do sistema elétrico nacional a REN – Redes Energéticas Nacionais.

 

Analisemos então, de uma forma comparativa, as variabilidades destas fontes. Esta análise pode ser feita a um nível “macro” isto é ao longo do ano, e a um nível “micro”, isto é, em períodos de tempo inferiores a uma hora.

 

No caso da energia hídrica tem de se considerar que há dois tipos de centrais, as que têm uma albufeira para armazenamento, nas quais, portanto, pode controlar-se até certos limites quando e que quantidade de eletricidade se gera, e as que não têm e que se designam como de fio de água, isto é, geram apenas quando há água fluente no rio. Aliás é também este o tipo de geração a que estão sujeitas as centrais eólicas, pois só geram eletricidade quando há vento, e as centrais solares que só geram quando há sol.

 

Os anos podem ser secos ou húmidos, o que implica variações anuais na produção hídrica de eletricidade. Em Portugal entre um ano seco e um ano húmido a razão da quantidade de eletricidade produzida é superior a 3 vezes, isto olhando para os últimos 15 anos. Mas, por outro lado, a variabilidade horária deste recurso, a fio de água, é muito pequena pois apresenta uma grande estabilidade temporal.

 

No caso de centrais com armazenamento, e uma vez que o recurso está armazenado, a variabilidade da produção pode ser ajustada quase instantaneamente às necessidades, quer do consumo quer das flutuações de produção de qualquer outro tipo de central, renovável ou não. Importa referir que, quando uma albufeira está cheia, a exploração da respetiva central passa a ser a fio de água.

 

Já nas centrais eólicas a variação anual é muito baixa, cerca de 10% em torno da média anual, mas a variação horária pode ser muito grande, mas previsível.

 

O mesmo se pode dizer das centrais solares no que respeita à produção anual. Contudo o grande óbice destas centrais é o aparecimento de nuvens, que apesar de ser previsível, quando surgem, ou desaparecem, introduzem variações apreciáveis na respetiva produção.

 

A produção de todas estas centrais está sujeita a variações sazonais, a hídrica e a eólica com uma produção maior no inverno diminuindo quando nos aproximamos do verão. As centrais solares têm um comportamento inverso, o que é bom e complementa bem as nossas necessidades.

 

A juntar a tudo isto deve referir-se o papel das centrais hídricas reversíveis, elemento fundamental na gestão de um sistema elétrico como o nosso, procurando ajustar as variações do consumo às variações na produção de eletricidade. Mas, não se pense que as centrais reversíveis só existem por causa das centrais eólicas e solares. Elas sempre existiram com uma percentagem em torno de 1.5% do consumo nos últimos 15 anos, isto apesar do peso da eletricidade de origem eólica ter aumentado naquele período entre 0.3% e 24%.

 

Em síntese, podemos concluir que temos um mix muito interessante nas fontes renováveis para produzir eletricidade, que ficará ainda mais equilibrado com o progressivo aproveitamento do sol e custo-eficiente graças à expressiva redução do custo da tecnologia fotovoltaica, que nos faz prosseguir no desenvolvimento das energias renováveis, pois:

 

Portugal precisa da nossa energia.

 

António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 

TAGS: Opinião , Sá da Costa , renováveis
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