Opinião Susana Rodrigues: "Economia Circular e aumento da procura de recicláveis"

25.05.2015

Alcançar uma economia circular exige que os produtos sejam projectados para a reciclagem desde o início, com alta qualidade e em fluxo circular. Em contraste com a economia linear baseada na produção, consumo e desperdício, o produto usado retorna ao ponto de partida, obrigando ao desenvolvimento de novas embalagens, serviços e modelos de negócio. A indústria terá um papel fundamental no início e fim do ciclo de vida dos produtos, devendo a produção e transporte usar combustíveis renováveis. Mas uma sociedade totalmente livre de resíduos é uma utopia ou um desafio?

 

A União Europeia tem vindo a dar sinais de que a adopção de um modelo que feche o ciclo de vida dos produtos é um desafio a encarar nos próximos anos. De acordo com uma notícia publicada no dia 8 de Maio, na ENDS Europe, a Comissão Europeia terá que propor metas de reciclagem ainda mais rigorosas para cumprir com a promessa de apresentar um pacote de medidas de incentivo à economia circular mais ambicioso.

 

De acordo com a mesma fonte, a revisão deste pacote deve prever medidas que garantam o aumento da procura por matérias-primas secundárias, uma vez que o mercado por si só não vai garantir o cumprimento dos objectivos definidos. Outra medida que será proposta, a introduzir na estratégia “Europa 2020”, é a criação de uma meta que relacione o consumo de matérias-primas com o PIB de cada estado membro.

 

Na Europa e em particular em Portugal ainda desperdiçamos muitos recursos com a deposição de resíduos recicláveis em aterro. No dia 30 de Abril foi publicado em Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros n.º 28/2015, que aprova o “Compromisso para o Crescimento Verde”, com efeitos a partir do dia um deste mês. Esta estratégia nacional, assinada por diversas entidades dos diferentes sectores da sociedade civil, assenta na conciliação do crescimento económico e da sustentabilidade.

 

Melhorar a eficiência dos recursos é uma das prioridades indicadas, uma pedra basilar na estratégia de reforço económico e crescimento na Europa. Obter mais com menos e garantir o acesso às matérias-primas necessárias, é essencial para a competitividade futura de Portugal. O foco deve agora ser conduzido para a concretização das medidas previstas neste compromisso, nomeadamente pelo incentivo da recolha selectiva, com medidas que podem ser o garante de matérias-primas com custos viáveis, mas também no outro lado, na inovação da produção, incentivando o ecodesign e incorporação de resíduos de forma funcional, segura e eficiente., respondendo a uma procura cada vez maior.

 

Concretizando com o exemplo do papel, graças à Declaração Europeia sobre Reciclagem de Papel, 2011-2015, a Europa possui um nível de reciclagem de papel que ronda os 70%, contribuindo de forma crescente no processo de fabrico de papel, e ligando, directa ou indirectamente, um grande número de sectores na economia europeia. Apesar disto, há escassez de fibras recicladas, com grande procura na Ásia, onde a China é o maior importador. Há já exemplos bem sucedidos, como os produtos produzidos por empresas como o IKEA e McDonald. No entanto, muito mais ainda precisa ser feito. Apesar dos custos da recolha selectiva, os sistemas de recolha “multi-materiais” que ainda existem na Europa devem ser substituídos por sistema de recolha selectiva, evitando o contacto do papel com materiais orgânicos, conforme estabelecido pela directiva relativa aos resíduos.

 

A cadeia de reciclagem de papel na UE pode também enfrentar problemas por causa das exportações de resíduos de papel não processado por organizações que não são parte do sector da reciclagem e por empresas comerciais não europeias instaladas na UE.

 

Uma recomendação constante da Lista Europeia de Categorias Padronizadas relativas a Papel e Cartão para Reciclar (EN 643), é a utilização do “Sistema Europeu de Identificação de Papel Recuperado” (RPID) - este sistema permite estabelecer a identificação do papel para reciclar comprado, recebido, armazenado e consumido em fábricas de papel, melhorando a rastreabilidade do fornecimento às fábricas de papel, dos processos e dos produtos provenientes de uma produção de papel segura.


Provocação do mês: Em Portugal, a concentração de esforços entre a indústria do papel e o sector dos resíduos poderia fazer a diferença na concretização desta estratégia para o “crescimento verde”, cooperando na recolha, triagem, reciclagem, processamento de fibras recicladas e ecodesign.

 

Susana Sá e Melo Rodrigues é licenciada em Engenharia do Ambiente pelo Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa, com uma pós-graduação em Gestão Integrada e Valorização de Resíduos da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL), onde está a desenvolver o seu doutoramento em Ambiente: “Benchmarking de Sistemas de Recolha de Resíduos Urbanos”. Iniciou a sua actividade profissional no Instituto da Água, onde foi membro da Comissão de Acompanhamento da Directiva-Quadro da Água. Posteriormente foi consultora na área de projecto e de fiscalização ambiental de empreitadas na FBO - Consultores, S.A. (DHV international consultancy and engineering group). De 2004 a 2014 trabalhou na HPEM, empresa municipal de Sintra responsável pela recolha de resíduos urbanos e limpeza pública, como Gestora de Planeamento e posteriormente nos SMAS de Sintra. Actualmente trabalha na ECOAmbiente, S.A., no Departamento Técnico e Comercial. É membro do grupo de investigadores da FCT/UNL, Waste@Nova.

TAGS: Opinião , Susana Rodrigues , resíduos , economia circular
Vai gostar de ver
VOLTAR