A qualidade paga-se

16.03.2021

Circunstâncias da vida (profissional) levaram-me para longe do meu “meio”. Tenho, neste momento, o privilégio de dirigir os destinos das Águas do Baixo Mondego e Gândara, empresa intermunicipal que resultou da agregação dos serviços de abastecimento de água e de saneamento de águas residuais dos municípios de Mira, Montemor-o-Velho e Soure.

 

Sistema que vai, embora não integralmente, da captação ao tratamento e serve um total de 30 mil clientes, de entre 53 mil habitantes.

Para quem derivou da gestão de um dos maiores serviços do país, com 200 mil clientes, de entre 400 mil habitantes, poder-se-á dizer, desde logo, porque assim é, que a dimensão é incomparável e que a realidade é radicalmente distinta, por via do enquadramento geográfico e da caracterização da organização territorial, então iminentemente urbana, agora iminentemente rural.

 

Quanto ao resto, diferenças só para quem não percebe nada disto, ou está de má-fé.

 

Os desafios são os mesmos, a responsabilidade é idêntica, o trabalho é, igualmente, muito.

 

Mas também torna percetível duas questões que são proeminentes e que deveriam ser do conhecimento de todos aqueles que integram o setor, mas que só o são quando dá jeito.

 

Em primeiro lugar, a escassez de oportunidades e a interiorização a que são votadas estas populações e, por arrasto, a gestão dos respetivos sistemas.

 

Em segundo lugar, o ecletismo da competência. Poucos, mas bons, e todos com um notável esprito lutador, ávidos de aprender, crescer e inovar.

 

A macrocefalia metropolitana é um erro recorrente e que sucessivos responsáveis políticos, sobretudo da área do ambiente, não souberam – ou não quiseram contrariar. É lamentável que se exija a prestação de um serviço de excelência, com água de qualidade, sem interrupções e variações de pressão, com um controlado registo de água não faturada, com uma programada intervenção na remodelação de redes, e com uma adequada gestão de ativos… sem condições financeiras, sem estrutura técnica, sem equipamentos atinentes e sem estímulos e incentivos.

 

Experimentem dar um carro a quem vive em Oeiras do Piauí, ou na costa norte da Ilha de Maiorca (perto de S’Estaca, onde se situa a mansão que Michael Douglas e Catherine Zeta-Jones julgo que ainda não conseguiram vender); ou uma casa sem telhado, a quem vive na floresta amazónica, no deserto do Sahara, ou em Reiquiavique. Pode ser um gesto nobre, mas, no final de contas, não serve para nada.

 

Sou um eterno esperançoso de que alguém, um dia, quem sabe, possa fazer a diferença. Eu fiz a minha parte, por pequena que possa parecer. E desde já posso atestar, não só me merecem a mim, como até mereceriam muito melhor…

 

Seja em Oeiras, em Lisboa, no Porto, ou em Coimbra; seja na Presa, na Carapinheira, ou na Gesteira, a qualidade paga-se.

 

Nuno Campilho é licenciado em Relações Internacionais e Pós-graduado em Comunicação e Marketing Político, em Ciência Política, e em Tecnologias e Gestão da Água. Executive MBA do IESE/AESE. Doutorando em Políticas Públicas no ISCTE-IUL. Foi presidente da União das Freguesias de Oeiras, Paço de Arcos e Caxias, administrador dos SMAS de Oeiras e Amadora e chefe de gabinete do Ministro do Ambiente, Isaltino Morais. Exerceu, ainda, funções de vogal do Conselho de Gerência da Habitágua, E.M. Foi titular do cargo de Diretor Delegado dos SIMAS de Oeiras e Amadora, até ao final de janeiro de 2020, e Senior Business Partner da Mundi Consulting. É membro da Comissão Especializada de Inovação da APDA e Diretor-geral da ABMG - Águas do Baixo Mondego e Gândara, EIM.

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